.

 

Comunismo e a “questão negra”: Redes intelectuais transnacionais na difusão do pensamento anticolonial entre as duas Guerras Mundiais.[46]

Comunismo y la "cuestión negra": Redes intelectuales transnacionales y en la difusión del pensamiento anticolonial entre las dos Guerras Mundiales.

 

 

Matheus Cardoso-da-Silva[47]

 

 

 

Resumo

 

Este texto visa apresentar brevemente as relações entre o Movimento Comunista Internacional e o Movimento de Pan-Africanista, através das interações entre a International Union of Revolutionary Writers e a League of American Writers, órgãos oficiais criados pelos comunistas para organizar um movimento internacional de escritores em prol do socialismo a partir da década de 1920. Por sua extensão e apelo anti-imperial e anti-colonial, essas redes acabaram por aglutinar também escritores negros de várias partes das Américas, do Caribe e da África, como no caso do poeta estadunidense Langhston Hughes, figura fundamental na expansão do pensamento anti-colonial por dentro do movimento Pan-Africano nas décadas de 1930 e 1940.

 

Palavras-chaves: Comunismo; Pan-Africanismo; Intelectuais; Langhston Hughes.

 

 

 

 

Resumen

 

Este texto pretende presentar brevemente las relaciones entre el Movimiento Comunista Internacional y el Movimiento Pan-Africano, a través de las interacciones entre la International Union of Revolutionary Writers y la Ligue of American Writers, organismos oficiales creados

 

 

46 Texto basado en la ponencia, “A International Union of Revolutionary Writers e a League of American Writers: circulação das ideias em redes transatlânticas entre as duas Guerras Mundiais.” que fue parte de la Conferencia “IV Encontro Nacional História dos EUA” realizado en los dias 26 y 27 de abril de

2017, Departamento de História, Universidad de São Paulo, Brasil.

47 Doutor en História Social, Departamento de História, Universidad de São Paulo, Brasil. Correo de contacto: stardus_mat@yahoo.com.br

 

 

por los comunistas para organizar un movimiento internacional de escritores en a lo largo de la década de 1920. Por su extensión y apelación anti-imperial y anticolonial, esas redes acabaron por aglutinar también escritores negros de variadas partes de las Américas, del Caribe y de África, como en el caso del poeta estadounidense Langhston Hughes, figura fundamental en la expansión del pensamiento anticolonial por dentro del movimiento panafricano en las décadas de 1930 y 1940.

 

Palabras claves: Comunismo; Pan-Africanismo; Intelectuales; Langhston Hughes.

 

 

 

 

Introdução

 

Essa que foi uma conferência realizada durante o IV Encontro nacional de História dos EUA, realizado no mês de abril do ano de 2017, teve como intenção mapear a interação entre o movimento comunista internacional e os movimentos de libertação das colônias britânicas durante a década de 1930 e 1940, entre eles, o movimento Pan-africano. Interação que já se dava desde a década de 1920, quando Lênin propôs ao movimento comunista assumir a luta anticolonial como central para a organização dos Partidos Comunistas ao redor do mundo.

 

Meu argumento é que, apesar dos órgãos oficiais do movimento comunista internacional terem  organizado  entidades  específicas  para organizar a militância em  prol  das  lutas  de libertação nacional – tal como a   International Trade Union Committee of Negro Workers, lançada pelo Comintern, em 1930, sobre a qual vou falar daqui a pouco – outras entidades anteriores também atuaram na difusão dos debates e na organização, especialmente dos intelectuais, tanto europeus quanto não-europeus, em torno da organização dos movimentos de libertação nacional e o conjunto de ideias que essas lutas instrumentalizavam.

 

É nesse sentido que eu quero retomar aqui brevemente a história das duas entidades que serão centrais nessa comunicação: a International Union of Revolutionary Writers, criada em Moscou, em 1925 e que dura até 1935 e a League of American Writers, fundada em 1935 e que dura até 1943.

 

Diferente da International Trade Union Committee of Negro Workers, essas outras duas organizações não tinham como intenção inicial se preocupar com as condições das colônias ou a luta pela emancipação negra; mas queriam organizar intelectuais em termos transnacionais, em torno da difusão de um conceito de arte revolucionária.

 

Contudo, ao mobilizar escritores negros (e não apenas negros), tal como o poeta estadunidense Langston Hughes que foi filiado a League of American Wirters, essas entidades transnacionais de escritores passa também a debater o racismo e ser uma mola de propulsão para os debates sobre a “questão negra” e o problema colonial tanto nos EUA como internacionalmente já que a liga congregava também escritos estrangeiros.

 

 

 

 

 

Comunismo e a “questão negra”

 

Antes de tudo é preciso definir o sentido de Pan-africanismo e como o conceito compõe um movimento político internacional com um projeto constituído visando a liberação das colônias negras tanto na África quanto nas Américas.

 

Os termos "pan-africano" e "pan-africanismo" não surgem antes de finais do século 19 e começo do século 20. Como projeto político, no entanto, um projeto coletivo de luta contra o racismo já pode ser observado de maneira embrionária em movimentos abolicionistas na Europa e nos EUA, tais quais a British-Based Sons of Africa, liderados por ex-escravos como Olaudah Equiano e Ottobah Cugoano.

 

O Pan-africanismo toma a força de um movimento mais ou menos consistente então a partir da luta de ex-escravos tais quais nas lutas dos afrodescendentes nos EUA no contexto do pós-guerra civil, nas lutas pela ampliação da cidadania dos negros libertos da escravidão. A partir de uma ideia do retorno à África (nesse momento ainda uma ideia de retorno idealizada) se liga aos embriões dos movimentos anticoloniais nacionais em gestação.

 

É importante notar ainda as diferenças entre o movimento Pan-africano dirigido pelo ativista jamaicano Marcus Garvey ou pelo historiador e sociólogo estadunidense W.E.B. Du Bois, que privilegiavam os debates étnicos em detrimento a prevalência do debate de classes dos comunistas. Por isso, é importante destacar a diferença entre aquele movimento Pan- africano anterior e o movimento Pan-africano financiado pelo Comintern a partir da década de

1920, tendo nomes como do jornalista, nascido em Trinidad, George Padmore, ligado simultaneamente ao movimento Pan-Africano internacional e a Internacional Comunista, como referências.

 

Em grande medida, é na esteira das redes construídas pelo Movimento Pan-Africano que irá se estabelecer, a partir da década de 1920, as relações entre o movimento comunista internacional e a “questão negra”. A “questão negra” foi assim descrita a partir dos debates travados nos EUA em torno da emancipação da população afrodescendente local quanto ao racismo. O termo foi cooptado pelo Comintern para fazer uma referência mais ampla - não apenas sobre as lutas de emancipação dos negros nos EUA, que principiaram esse debate, tanto quanto na África do Sul, à opressão colonial na África e às diásporas africanas nos grandes centros europeus, como na Grã-Bretanha e na França.

 

Quanto a importância da Revolução de Outubro para à África, Hakim Adi (2013) lembra que ela foi o acontecimento político mais importante do século XX, mostrando, pela primeira vez, a capacidade dos trabalhadores em se auto-organizar para questionar o poder político vigente em direção a uma mudança drástica de sistema político. Seu impacto internacional, com

 

 

isso, foi o de motivar as populações subjugadas pela ordem liberal capitalista, que se impunha nas colônias através do imperialismo. Adi lembra ainda que, no âmbito das Relações Internacionais, a Revolução Russa expôs a relação entre o imperialismo, o colonialismo e a guerra, evidenciando os tratados secretos entre as potências europeias para a manutenção de suas colônias e a subjugação dos povos nativos.

 

 

 

 

Entre o movimento internacional de combate ao racismo e de emancipação dos negros, o impacto inicial maior da Revolução foi entre as seções mais radicais dos movimentos de emancipação dos Afro-Americanos, especialmente na African Blood Bloodhood. Um outro impacto internacional foi entre aqueles que haviam combatido na Primeira Guerra Mundial, como Lamine Sanghor, na França, que viria a tornar-se proeminente líder negro pela emancipação dos povos afro-descentes e dos africanos subjugados pelo colonialismo. Outro aspecto extremamente positivo dado pela Revolução Russa foi a emancipação das colônias russas. Pela primeira vez foi possível ver uma nação europeia, com tradição imperial, libertar- se das pretensões coloniais em favor dos povos oprimidos. Fator que não apenas reforçou a notoriedade dos ideais de 1917, mas apontou o socialismo como um caminho, inclusive, de libertação dos povos oprimidos pelo imperialismo. O que impressionou muitos expoentes dos movimentos antirracista e anticolonial nos EUA, como do poeta Langston Hughes e de W.E.B. Du Bois, ambos visitando a URSS depois da Revolução e ali se convertendo ao socialismo.

 

Para os comunistas, a “questão negra” tomou, com isso, aspectos de uma política necessariamente transnacional: ou seja, se a luta contra o racismo e a opressão colonial atingia tanto os afrodescendentes nos EUA e na Inglaterra, quanto as populações africanas, ela os unia em uma luta comum que não reconhecia as barreiras geográficas dos Estados. Política que permaneceu até o VII Congresso da Internacional Comunista, realizado em 1935.

 

Lênin iniciou a discussão sobre a “questão negra” nos  EUA no  II Congresso da Internacional Comunista, em 1920. (LÊNIN, 1920) Aquele foi um primeiro esforço em construir um debate global acerca da situação das populações negras oprimidas pelo julgo imperialista e capitalista, aproximando-o de suas reflexões teóricas, nos textos,

 

 

 

 

1) “Sobre os direitos das nações a autodeterminação” (1914)

 

2) “Imperialismo, fase superior do capitalismo” (1916)

 

3) “Relatório da Comissão sobre as questões nacionais e coloniais” (1920)

 

 

Lênin questionava o papel dos partidos comunistas locais na organização operária para construir o apoio às lutas de liberação contra o inimigo comum de todos: o imperialismo. Segundo sua tese sobre o imperialismo, tanto quanto a luta contra o capitalismo, a luta anticolonial não podia restringir-se apenas aos povos europeus ou nos EUA, mas deveria ser global, especialmente onde os grilhões do imperialismo estivessem mais fracos, permitindo assim o avanço concomitante do socialismo. Com isso, a questão da opressão dos negros nos EUA, ao mesmo tempo que se tornou paralela no embate da luta de classes – haja visto que os negros representavam parcela importante do contingente operário local – se tornou um sucedâneo internacional da luta contra todas as formas de opressão, entre elas o colonialismo.

 

É sintomática, nesse sentido ainda, a fala do famoso jornalista John Reed, na abertura do II Congresso da Internacional Comunista, realizado no dia 25 de Julho de 1920, em Moscou, que alertou os soviéticos para a situação de opressão dos negros nos EUA.(REED, 1920,1977)

 

Para Lênin, segundo as resoluções do II Congresso da Internacional Comunista de 1920, todos os partidos comunistas deveriam expor de maneira clara, não apenas sua orientação anti- imperialista, como criticar abertamente o colonialismo dos governos locais e a defesa da autodeterminação dos povos, garantindo assim sua autonomia nacional. (LÊNIN, 1977)

 

Nesse momento, o Comintern tentava organizar um congresso mundial para debater a questão negra e buscava estabelecer uma política coerente – e internacional - que unisse todos os comunistas em uma direção unificada. Na França e na Inglaterra, além da pouca idade, os Partidos Comunistas (tanto o CPGB quanto o PCF, fundados em 1920) não tinham bases suficientes para questionar publicamente o imperialismo. O que explicava ao mesmo tempo, a influência do chauvinismo e do nacionalismo em certos setores da esquerda britânica e francesa, alguns até indiferentes à opressão colonial ou contrários a libertação das colônias na África, Caribe e Ásia.

 

A título de exemplo, o Parti Communiste Français era melhor organizado que o Communist Party of Great Britain, haja visto a tentativa de organizar uma União Inter-Colonial, que  tecia  ligações  entre  militantes  nacionais  na África,  Caribe  e  Indochina,  em  prol  da construção de um movimento anticolonial unificado, construído por dentro das colônias francesas, constituindo, inclusive, seu próprio comitê de estudos da questão colonial. Enviou até delegados das colônias, como o Vietnamita Ho Chi Minh, ao V Congresso da Internacional Comunista, realizado em Moscou, entre junho e julho de 1924.

 

É muito interessante lembrar, por exemplo, a influência dos debates sobre a situação dos negros nos EUA para Ho Chi Minh, que viveu no Harlem, em Nova York, no final da década de 1910, quando participou ativamente de reuniões na Marcus Garvey´s Universal Negro Improvement Trust, acompanhando de perto o debate sobre a opressão dos negros e o racismo nos EUA.

 

 

 

 

 

Sobre a formação da International Trade Union Committee of Negro Workers (ITUCNW)

 

 

 

 

A International Trade Union Committee of Negro Workers (ITUCNW) foi uma organização criada diretamente pelo Comintern, em 1930, para coordenar as ações transnacionais entre os comunistas em relação a luta pela emancipação dos negros diante da opressão imperialista. A ITUCNW tem sua origem em outra organização transnacional: a Internationale Syndicale Rouge ou Profintern, que era essencialmente uma central sindical dedicada a oferecer uma alternativa revolucionária a influência da sindical internacional que, à época, estava sob liderança da II Internacional socialista.

 

A ISR buscava coordenar as ações relativas à “questão negra” entre os comunistas, tratando da questão da opressão étnica entre os operários nos EUA, na África do Sul, na França, na Inglaterra, etc, como um sucedâneo da opressão de classe. Parte das críticas tecidas pela ISR à atuação local da militância comunista em relação à “questão negra” dizia respeito tanto a falta de coordenação das atividades na formação de uma consciência de classe relativa à opressão étnica quanto a ineficiência dos PCs em coordenar essas ações.

 

Foi neste contexto que se decidiu fundar a ITUCNW, em julho de 1930, durante conferência  em  Hamburgo,  Alemanha,  com  a  função  central  de atuar  junto  aos  PCs  na coordenação das atividades relativas à “questão negra”. A entidade era dirigida pelo comunista afro-estadunidense James Ford e existiu até 1937. Devido aos baixos recursos próprios, a organização dependia muito da atuação individual de seus membros.

 

Além da conferência internacional, em 1930, a organização publicava regularmente um boletim em francês e inglês, criando laços com trabalhadores nos EUA, na África, no Caribe e na Europa. Havia, contudo, um problema logístico central: a localização da sede da ITUCNW

– em Bruxelas. Por isso, os PC europeus – especialmente o francês, o britânico, o belga e o holandês - tinham dificuldades em organizar seus contatos nas colônias.

 

A organização queria, ainda, forçar a condução dos debates sobre a “questão negra” para uma esfera diferente daquela em que entidades militantes do movimento negro internacional, chamadas de “social-reformistas” pelos comunistas, gravitavam. Entre elas, por exemplo, estavam aquelas lideradas por Garvey e Du Bois e outras entidades nos EUA, como a National Association of Coloured People, dirigida por Walter White. O que revela, de maneira muito interessante, as tensões criadas entre o movimento Pan-africano internacional e aquele movimento organizado a partir das entidades comunistas.

 

 

Esse é apenas um exemplo de como se deu a interação entre o movimento comunista internacional, em suas estruturas oficiais, e outras entidades de luta pela emancipação das colônias em um plano internacional.

 

 

 

 

A International Union of Revolutionary Writers: da arte proletária a luta anticolonial

 

A Primeira conferência em torno da criação da International Union of Revolutionary Writers teve lugar em novembro de 1927, em Moscou, no ano de comemoração do 10o aniversário da Revolução de Outubro, e teve delegados de mais de 14 países.

 

A iniciativa para a fundação de uma organização internacional de escritores revolucionários partiu do Kommunistische Partei Deutschlands (KPD), com o objetivo de criar uma “Frente Cultural Vermelha” para contrapor a ideologia burguesa no campo da cultura.

 

Em 1928, quatro delegados alemães fundam a primeira organização internacional de escritores revolucionários: a BPRS (“Bund Proletarischer Revolutionarer Schriftsteller”), que recruta escritores profissionais e semiprofissionais para atuarem como correspondentes da organização.

 

O programa embrionário da entidade pregava a defesa da URSS e das políticas do “Terceiro Período”, adotado no VI Congresso da Internacional Comunista, em 1928 – basicamente a defesa dos sindicatos vermelhos contra o sectarismo das correntes paralelas a direção centralizada soviética. A literatura revolucionária teria, com isso, o papel de promover as políticas do Comintern no campo cultural, construindo bases ideológicas para a aglutinação dos PC e sua militância de maneira unificada sob a liderança soviética.

 

O trabalho da International Union of Revolutionary Writers era dividido em seções internacionais e outros grupos locais. Á época da organização da Segunda Conferência de Escritores Revolucionários e Proletários, ocorrida em Charkov, Ucrânia, em novembro de 1930, a organização contava com grupos na Alemanha, Áustria, Polônia, Checoslováquia, Japão e EUA.

 

A entidade publicava e distribuía internacionalmente uma revista em forma de boletim: “Literature of the World Revolution” depois rebatizada como, “International Literature”, publicação bi-mensal publicada em alemão, inglês, francês e russo.

 

A International Union of Revolutionary Writers segue firme até 1935, quando a política do Cominter muda novamente ao cabo do VII Congresso da Internacional Comunista e a formação da tática frentista de combate internacional ao fascismo.

 

 

Como se vincula então a League of American Writers?

 

 

 

 

A League of American Writers foi criada no âmbito do Primeiro Congresso de Escritores Americanos, entre 26 e 28 de Abril de 1935, em Nova York. A Liga foi criada como filial da International Union of Revolutionary Writers nos EUA, mas também mantinha relações com a Association of Writers for the Defense of Culture, uma equivalente nos EUA da britânica British League of Writers.

 

O principal mantenedor da Liga era o Communist Party of United States (CPUSA). Contudo, a Liga mantinha relações com outras entidades da esquerda nos EUA, congregando um grupo grande de afiliados, entre eles Waldo Frank (primeiro presidente da liga), Joseph Freeman (editor da revista comunista New Masses), Michael Gold, Granville Hicks, Michael Cowley, Alexander Trachtenberg, Langston Hughes, John dos Passos, Granville Hicks, Leo Huberman, Van Wyck Brooks, James Baldwin, e europeus, como o poeta britânico W.H. Auden, o cientista J.B.S. Haldane, o poeta espanhol Louis Aragon, etc.48

 

Alguns dos princípios da Liga eram:

 

1) organizar os escritores nos EUA em uma frente pela paz e pela democracia e contra o fascismo.

 

2) suportar as Frentes Populares em outros países;

 

3) e cooperar com outras organizações similares no exterior.

 

 

 

 

Em 1937, por exemplo, a Liga vai desempenhar papel fundamental na divulgação da Guerra Civil espanhola nos EUA. O evento de abertura do congresso, ocorrido no Carneggie Hall, em Nova York, teve a fala de abertura de Ernest Hemingway, que havia acabado de voltar da Espanha. Outra fala de destaque foi do secretário-geral do CPUSA, Earl Browder, destacando a adesão do CPUSA à tática das “Frentes populares”.

 

 

 

 

A figura de Langston Hughes.

 

Langston Hughes, proeminente intelectual negro estadunidense, foi um dos vice- presidentes da Liga no final da década de 1930. Em 1939, na abertura do 3o Congresso da Liga,

 

 

 

48 Para uma lista completa dos membros da Liga ver:

https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_members_of_the_League_of_American_Writers

 

 

também ocorrido no Carneggie Hall, Hughes fez a fala de abertura, destacando a situação dos afro-americanos e dos judeus na Alemanha Nazista.

 

Essa fala de Hughes foi fundamental para trazer a questão do racismo e da subjugação de minorias étnicas para dentro dos debates da Liga. Não é um erro dizer, é verdade, que a Liga tinha um escopo de trabalho mais largo, digamos, que a própria International Union of Revolutionary Writers. No entanto, a proeminência dos debates permanecia ligada ao papel da cultura na luta anti-fascista, seguindo a trilha da tática frentista.

 

É preciso lembrar que Hughes já era um destacado militante da causa racial nos EUA. Como membro da League of American Writers, publicou livros fundamentais sobre a invasão italiana da Etiópia em 1935 (“Ballad of Ehiopia” e “Broadcast on Ethiopia“) cuja primeira aparição pública na Inglaterra foi patrocinada pelo Left Book Club de Londres, em 1938. (SMETHURST, 1999, p.41)

 

Esse internacionalismo cultural criado pelas redes transnacionais comunistas/socialistas ajudaram não apenas na difusão do pensamento de intelectuais como Hughes, mas abriu portas para a tradução de autores não-anglófonos para a língua inglesa de problemas primeiramente apresentados em outros idiomas (como o pensamento radical anti e pós-colonial das colônias não-anglófonas). Livros como, por exemplo, a antologia Negro, originalmente publicada em francês, de Nancy Cunard, de 1934, que reunia material de pesquisa de anos sobre as diásporas africanas, pôde ser difundido nos EUA e na Inglaterra em traduções promovidas por estas redes comunistas, em revistas como a New Masses, a Partisan Review, ambas em Nova York, e a Left News, publicação oficial do Left Book Club em Londres.49

 

 

 

 

Referências

 

ADI, Hakim. Pan-Africanism and Communism. The Communist International, Africa and the

Diaspora, 1919-1939. Trenton, New Jersey: Africa World Press, 2013.

 

ALLEN, James S.. The Negro Question in the USA. New York: International Publishers: 1936. In.http://www.marx2mao.com/Other/NQ36.pdf

 

 

 

49NERUDA, Pablo y CUNARD, Nancy. “Los poetas del mundo defienden al pueblo español (París,

1937). Colaboran: Rafael Alberti, Vicente Aleixandre, W. H. Auden, Nancy Cunard, Cedric Dover, Federico García Lorca, Hans Gebser, Raúl González Tuñón, Nicolás Guillén, Brian Howard, Langstone

Huges, Pablo Neruda, Pierre Robin Randall Swingler, Tristan Tzara, Robin Wilson. Prólogo de Rafael

Osuna. Epílogo de Ramón J. Sender: "Recuerdo de la inefable Nancy Cunard". Edición facsímil. Published by Renacimiento, Colección Facsímiles de Revistas Literarias, 2010, Sevilla. 2ª edición. (2010). Ver também Cunard, Nancy. Essays on Race and Empire. Broadview Press Ltd, Canada (2002). E Cunard, Nancy; Ford, Hugh. Negro: An Anthology. Frederick Ungar, New York (1984)

 

 

CHADAREVIAN, Pedro Caldas. “Os precursos da interpretação marxista do problema racial”. Critica Marxista, n.?, 2002. pp.73-93. In http://www.ifch.unicamp.br/criticamarxista/arquivos_biblioteca/artigo249artigo139artigo212a rtigo5.pdf

 

HAYWOOD, Harry. The Struggle for the Leninist Position on the Negro Question in the United

States. In. https://www.marxists.org/archive/haywood/1933/09/x01.htm

 

                 .  “The  Negro  Nation”.  In:  Chapter  VII  of  the  book  Negro  Liberation.  In:

https://www.marxists.org/archive/haywood/negro-liberation/ch07.htm

JAMES, CLR “Revolutionary answer to the Negro Problem in the USA. A speech by CLR

James     at     a     Socialist     Workers     Party     (US)     conference     in     1948”.     In:

https://libcom.org/library/revolutionary-answer-james-clr

 

LÊNIN, Vladimir I. Obras Escolhidas, Tomo 2. Editorial "Avante!" - Edições Progresso Lisboa

-         Moscovo,         1977.         Transcrição:         Fernando         A.S.         Araújo.         In:

https://www.marxists.org/portugues/lenin/escolhidas/index6.htm

 

                   . The Second Congress Of The Communist International. July 19-August 7, 1920. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1920/jul/x03.htm

REED, John. “The Negro Question in America. Speech at the 2nd  World Congress of the

Communist International”. Moscow, July 20, 1920. Second Congress of the Communist International. Minutes of the Proceedings. London: New Park Publications, 1977. Disponível em:  https://www.marxists.org/history/usa/parties/cpusa/1920/07/0725-reed- negroquestion.pdf)

 

 

 

 

“THE 1928 and 1930 COMINTERN RESOLUTIONS ON THE BLACK NATIONAL QUESTION IN THE UNITED STATES. With an Introduction by Lowell Young.” In: http://www.marx2mao.com/Other/CR75.html

 

TROTSKY,   Leon.   On   Black   Nationalism.   Documents   on   the   Negro   Struggle.   In:

https://www.marxists.org/archive/trotsky/works/1940/negro1.htm

 

VASSILIEVA, V.. “A Doutrina Leninísta-Stalinista Sobre as Nações e a Revolução Nacional

e Colonial.” In: https://www.marxists.org/portugues/tematica/rev_prob/28/doutrina.htm